O apoio do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, à Lei que criminaliza a misoginia e foi aprovada no Senado, criou uma fissura na direita brasileira. De um lado o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, do outro, o deputado Nikolas Ferreira, duas lideranças nacionais do PL. Além da confusão interna, ainda criou palco para mais um embate entre esquerda e direita.
Nikolas não citou Flávio, mas falou em decepção. “Estou extremamente decepcionado com o nosso Senado. Afinal de contas, ninguém se opôs a isso e viu o real perigo do que estava acontecendo. Ou seja, só mostra que muitos, inclusive da própria direita, estão em um berço infantil da guerra cultural. Não tem justificativa para poder não ter batalhado contra esse projeto”
.CONFUSÃO
Nome fortemente ligado à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a senadora Damares Alves votou a favor do projeto, mas depois disse que está com medo dele. Preocupada com o próprio futuro, disse que não quer ficar inelegível.
“Por que eu tenho dúvidas [sobre esse projeto de lei]? Porque eu respondo a processo por misoginia. Eu sou considerada misógina. Esse projeto de lei realmente nos preocupa. O texto que estão tentando trazer [agora, para a Câmara dos Deputados] é de que a manifestação da liberdade de expressão seja preservada, porque, senão, [do jeito que foi aprovado aqui no Senado] vai comparar a misoginia a racismo, e o político pode ficar inelegível”.
ESQUERDA COMEMORA
Políticos e apoiadores da esquerda estão celebrando a lei. A deputada Tabata Amaral também gravou um vídeo, e chamou Nikolas de mentiroso.
Tabata afirma que políticos de direita como Nikolas tentam manipular a informação, para colocar a sociedade contra uma Lei que protegerá mulheres.
O tema segue acalorado em Brasília e nas redes sociais, e vai virar pauta nas eleições.
A LEI
O Senado Federal aprovou nesta terça-feira (24) o projeto de lei que criminaliza a misoginia, que é o ódio ou aversão às mulheres. 

A proposta insere o delito entre os crimes de preconceito e discriminação previstos na Lei do Racismo.
O texto define a misoginia como conduta baseada na crença da supremacia do gênero masculino. Como forma de combater essa violência, o projeto prevê penas de 2 a 5 anos de prisão nestes casos.
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A autora do projeto senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) denunciou as agressões e ameaças que recebeu na internet por defender a proposta.
“Por exemplo, eu recebi: ‘vai morrer, lixo’; ‘vai mandar prender, quero ver, os que te querem morta, depois de eles terem te matado. Depois de te seguir até sua casa, merda!’. ‘Você é contra a democracia. Manda prender quem ofende mulher na internet. Então vem, você vai morrer. Não escapa dessa não'”, enumerou a senadora.
A relatora do projeto senadora Soraya Tronicke (Podemos-MS) reforçou o crescimento do número de feminicídios no país, necessitando criminalizar a misoginia.
“O ódio às mulheres não é episódico, não é abstrato. Ele é estruturado, crescente e ceifa vidas todos os dias. O país viveu, nos últimos anos, uma escalada alarmante de feminicídios e agressões motivadas por desprezo às mulheres.”
“Apenas em 2025 houve 6.904 vítimas de tentativas e casos consumados de feminicídios, segundo levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídio da UEL [Universidade Estadual de Londrina]”, lembrou a senadora Tronicke.
A oposição defendia que a proposta fosse alterada, para permitir que não fossem punidos autores de crimes de misoginia em caso de ‘liberdade de expressão’ ou até por motivos religiosos. Mas as alterações foram rejeitadas pelo plenário do Senado.
O texto agora segue para discussão da Câmara dos Deputados.

